08 outubro, 2010
04 junho, 2010
06 setembro, 2008
16 abril, 2008
E então? Razões de um epitáfio.
Muitas coisas existem cuja razão não compreendemos. Relativamente a elas, expressamos o nosso entusiasmo, o nosso gosto, a imperiosa necessidade de que se façam presentes e muitas vezes – senão na sua maioria – desconhecemos a razão para tanto, o porquê do seu vício e nossa dependência.
Desconheço todas as razões pelas quais gosto de jazz. Algumas seguramente prendem-se com a sua cadência rítmica, a sua envolvência sincopada, a forma como a sua harmonia muitas vezes se expande de um modo sofisticado e cosmopolita, outras vezes, como tudo se reduz à efervescência e à simplicidade pura do swing.
Contudo, uma razão sei pela qual gosto de jazz: o facto de, enquanto conceito musical, permitir um momento de criação e de expressão, que respeita apenas e exclusivamente ao indivíduo enquanto músico. Esse mesmo momento de individualismo musical, de manifestação de sentimento ou sensibilidade, acontece invariavelmente no “solo”, no improviso do instrumentista, apesar de o mesmo dever ocorrer sem que, em momento algum, se perca a noção de interactividade com os restantes músicos que suportam a criação. E em toda esta dialéctica artística há muito de cerebral, mas simultaneamente, ardor e um empenho da paixão.
Exemplo claro disso é “So What” com o quinteto de Miles Davis.
Aquilo que o blog aperguntacircular na sua raiz pretenderia ser, era algo de jazzístico no sentido que vem de ser definido. A expressão individual, a criação dentro de um colectivo. O improviso a partir de um tema previamente definido: a mediação de conflitos. E tal como em “So What”, tudo começou serenamente com a exposição do tema, o seu propósito, ganhando posteriormente corpo e embalo para que a expressão individual do “solo”, os improvisos que procuravam explorar de um modo individual ideias, conceitos, “harmonias” que haviam sido trazidas pelo conjunto de que se fez parte, pudessem acontecer, como aconteceram. Durante este ano, alguns solos de aperguntacircular, pareceram-me relativamente bem conseguidos, outros nem por isso, mas o importante é que no todo, resulte um equilíbrio, uma certa consistência.
Miles Davis, dizia que o mais importante da música eram os seus silêncios, aquilo que musicalmente se designa por pausas. E de todos os silêncios e pausas que podem acontecer num solo, ou improviso, o mais importante deles, é o de saber quando “sair”, quando parar, saber quando introduzir a pausa definitiva, depois do eventual brilhantismo harmónico e da paixão solista.
E é isso que aqui se anuncia, a pausa definitiva, o suprimir dos sons. Por aqui, não existirão mais variações rítmicas ou melódicas a partir de um tema previamente introduzido, a mediação de conflitos. Não serão acrescentadas mais colcheias, ou semi-colcheias individualizadas a algo tão vasto, pois é tempo de perceber a necessidade do silêncio, da pausa, sob pena de fazer destoar e desequilibrar o conjunto. Estas as razões fundamentais, para o presente epitáfio: importa não escabrunhar o que se fez, ainda que isso possa não ter importância nenhuma!
E assim, depois de introduzido o tema, feitas as variações solísticas como base na sua percepção individualizada, eis que tudo converge para um progressivo abandono do conjunto, o sair de cena e o acumular dos silêncios, dos sucessivos intervenientes, até que deles resta um, Paul Chambers, no contrabaixo, que serenamente num arpejo, nos diz o fim.
O tempo é de guardar estes, para semear novos improvisos…
"So What" de Miles Davis, pelo quinteto de Miles Davis, gravado ao vivo em Abril de 1959. Miles Davis (T), John Coltrane (TSx), Paul Chambers (B) Jimmy Cobb (BT) e Wynton Kelly (P).
11 abril, 2008
aperguntacircular wekend lounge
"stolen moments" de oliver nelson, com oliver nelson (sax tenor) eric dolphy (sax alto e flauta), george barrow (sax barítono) bill evans (p), roy haines (bt), freddie hubard (t), paul chambers (b), do álbum "the blues and the abstract truth" editado por impulse records em fevereiro de 1961.
Bom fim-de-semana!
07 abril, 2008
a mediação impossível
jet li vs. donnie yen
"Hero" de zhang yimou, Beijing New Picture Film Co., Outubro de 2002.
the poisoned mondays antidote
"Cosmic Girl" Jamiroquai do álbum "travelling whithout moving" editado por Epic Records em Maio de 1996.
04 abril, 2008
aperguntacircular weekend lounge
"blue in green" de Miles Davis, do álbum "Kind of Blue" editado em Agosto de 1959 por Columbia Records. Miles Davis (tp), Bill Evans (p), Paul Chambers (b), Jimmy Cobb (bt), John Coltrane (sax).
Bom fim-de-semana!
02 abril, 2008
agnus dei?
1. O exercício não é fácil e uma vez mais, circunscreve-se a uma simples abstracção. Parte da ideia que vem sendo sucessivamente aqui promovida, de que o futuro importa um pouco mais da nossa substância individual e sobretudo, dos julgamentos e juízos de que a grande maioria é capaz, das referências morais e de valores que as sustentam, sejam elas quais sejam, isto por contraposição ao abandono do exercício de tais faculdades , em favor do Estado.
2. Parte-se de uma constatação histórica: a de que o Estado, quando ausente ou incapaz de ser expressão e concretização de opções morais aceites como justas, pela maioria dos indivíduos que o compõem, passa a ser ele mesmo veículo da arbitrariedade. Constatações históricas de tais circunstâncias abundam e não vale a pena aqui nomeá-las. Em todas, sem particular excepção, o totalitarismo e a opressão acontece porque num dado momento, por inércia ou coacção, os indivíduos deixaram de ter mão e de poder conformar o que deve ser a actuação do Estado nas suas diferentes vertentes, e esta – fruto de um estreitamento de fundamentos e objectivos – autonomizou-se relativamente a eles (indivíduos), passando a impor sem qualquer espécie de tolerância, um quadro irrestrito de opções e de condicionamentos comportamentais, que não admite senão a submissão. Nessas circunstâncias, o Estado abdica do indivíduo a favor dele próprio e da sobrevivência de tudo aquilo em que se desdobra.
3. Por isso, toda a sociedade Justa deve ser, no sentido que vem de ser exposto, uma sociedade individualizada, uma comunidade política capaz de dar expressão a sentimentos ou juízos de valor individualmente referenciados e que um tal espaço, ou momento de valoração, lhe seja orgânico, ou seja, torna-se necessário que tais momentos valorativos e individuais sejam prática banalizada ou relativamente comum da vida em sociedade. De algum modo, esta será tanto mais evoluída politicamente, economicamente ou culturalmente, quanto mais espaço propiciar àquela expressão individual e mais habituada esteja, ao seu posterior desenvolvimento institucionalizado.
4. E em que medida todas estas considerações sobre a relação Indivíduo vs. Estado cabem na MEDIAÇÃO de CONFLITOS? Cabem inteiramente. O apelo que faz a mediação aos nossos julgamentos e equilíbrios, à ponderação e à construção de soluções individualizadas e o dispositivo dialéctico e polarizado a partir do qual, soluções de consciência são expressas e materializadas, remete-nos precisamente para aquela necessidade referida no ponto anterior, que qualquer sociedade justa, deve reconhecer e permitir determinações, projecções, assentes exclusivamente em valores e juízos particulares.
5. Ora atenta esta estrutura e este campo aberto de individualismo e de consciência autonomizada, que naturalmente decorre da MEDIAÇÃO DE CONFLITOS, sempre se estranhou o facto de haver sido o Estado quem assumiu, incrementou e presentemente domina, os mecanismos através dos quais aquela MEDIAÇÃO é exercida. De onde se torna manifesto que o Estado, sendo uma babilónia saliente, não pretende largar mão da uniformidade e do monolitismo com que reveste todas aquelas decisões que concretizam uma das suas atribuições fundamentais: o exercício da Justiça.
6. Assim evidente se torna, que o domínio presentemente exercido pelo Estado nesse campo aberto de individualismo que é a mediação, não pode senão significar uma vigilância interessada, no sentido de monotorizar ou mesmo impedir que a Justiça aconteça e possa resultar também, de referências íntimas e de consciência assentes em valores e em enquadramentos morais, que não ganham expressão visível na Lei e suas normas.
7. Daqui poderíamos especular se servem aos propósitos da Mediação e à particular forma em que se desenvolve – enquanto forma de realização de justiça – enquadramentos morais, juízos, valores, que possuem uma dimensão que se encontra além das projecções legais e normativas estatalmente emanadas e que se podem inscrever na intimidade de cada um, naquilo que são as suas convicções profundas e na particular e única mundividência que cada um assume, perante o mundo e os outros: será reconduzível e enquadrável uma particular decisão obtida em sessão de mediação, à humilde substância de um salmo como “Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, miserere nobis”*, ou poderá ser tal decisão pertinente à proclamação racionalista de Kant “Cumpre o teu dever incondicionalmente. Age sempre de tal maneira que a máxima da tua acção possa ser erigida em lei universal”? A psicologia pode de igual modo traduzir e explicar noutra vertente resoluções que aconteçam no âmbito da Mediação e todo um mundo de possibilidades se abriria. Contudo e para já, tal surge demasiadamente complicado para ser por aqui desenvolvido.
* “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo, tende piedade de nós.”
8. Concluí-se por fim do seguinte modo: de que sempre devemos ter plena consciência das possibilidades que nos estão individualmente abertas e perceber as razões que se escondem nos protagonistas, que assumem perante nós uma diferente natureza e que pretendem connosco disputar o nosso individualismo. Importa sobretudo saber, ou ter a consciência que "cordeiro" pretendemos ser: se aquele de Deus, ou aquele do Estado. Disso resultará mais claro, o empenho ou os sacrifícios que cada um de nós está disposto a protagonizar...
Missa em Si menor BWV 232 de Johann Sebastian Bach, “Agnus Dei”, magnificamente interpretado por Andreas Scholl, contralto, com o Coro Collegium Vocale Gent, sob a direcção de Philippe Herreweghe, em edição discográfica da harmonia mundi s.a. que recomendo em absoluto.
31 março, 2008
the poisoned mondays antidote
"so easy" - röyksopp, do álbum "melody a.m." editado por wall fo sound em dezembro de 2001 (video não oficial).
28 março, 2008
thank God it´s friday
atlanta, georgia, usa
O desconforto corporal despertou-me. Zeloso das condições necessárias aos despertares optimistas, o sono aborrecera-se com aquela luminescência que entretanto se assanhara pelo quarto, perturbando o crescer amordaçado das suas sombras: um reflexo circunspecto na moldura das memórias, o crepúsculo subindo o vinco desconforme das roupas, o silêncio fundo e desenhado dos móveis, antes que tal quietude desarrumada, exposta, sucumbisse por completo, por volta das oito e um quarto sobre o inevitável frenesim citadino. Fora na exacta expectativa dessa normalidade cronológica, que me havia deitado, exausto, sete horas antes.
Quando o meu corpo se sacudiu naquele aborrecimento incómodo, acordando-me – e para muitos, incluindo eu mesmo, isso nunca acontece no exacto momento em que abrimos os olhos – a luz transpirava ofegante das paredes. Efectivamente, algo diverso acontecia no amanhecer do quarto.... Eram sete horas e uma quantidade imprecisa de minutos mais e na manhã persistia ainda pura, a fresca e inocente dureza dos frutos – aquela que a gosto se arranca com os dentes – a que contudo correspondia uma luminosidade difícil, uma incandescência vigorosa, própria já do meio do dia e que a fisiologia do meu corpo, num estremecer, em absoluto rejeitara.
Em Atlanta, cidade de uns quantos milhões, que se estende e se multiplica visível pelo interior de reflexos e espelhos, pusera-se uma manhã temporalmente diversa, desencontrada, sem que coisa alguma se agitasse pelas ruas... A metrópole extensa, quase infinita, acontecia suspensa de si mesma, banhada de luz…
Assentei-me nos pés, aproximando-me da claridade que brilhava intensa junto à janela do quarto e marquei no vidro, a palma da mão. Do meu trigésimo quinto andar, no extremo sul do Georgia Institute of Technology, onde convergiam a Spring Street e o segmento nascente da North Avenue, percebia bem a esquadria apertada das ruas e os quarteirões a norte do Centennial Olympic Park, que partem da Alexander Street, tendo por limite no seu estremo nascente, o Hardy Ivy Park e a Peachtree Street. É por ali que se arremessam ao início do dia, executivos e quadros técnicos saídos da ligação alcatroada ao subúrbio, às vivendas afogadas em folha caduca e erigidas em lugares bem mais pacíficos e chilreantes. É sempre por aí que se semeia e alastra a efervescência dedicada dos seus dias, o seu fervor e empenho empresarial, que posterior e inexoravelmente, alavanca toda a cidade.
Hoje, porém, a estas horas e por aquelas paragens, em tudo penetrava a ausência e a paralisia. Nada nem ninguém constrangia outrem, ninguém dificultava ou obstruía. As ruas permaneciam ruas, sublinhadas na sua fisionomia rectilínea pelo bordejamento fresco dos plátanos, nuas das coisas e de pessoas, nelas alvoraçando apenas os pássaros, résteas pulsantes de uma natureza já de si exígua, em voos tão imprecisos quanto estúpidos, para entretenimento solitário da Primavera…
E fora talvez acreditando no meu próprio espanto, nesse crescer incrédulo de se tornar suspenso o magma de que depende o nome cidade – ou simplesmente porque era ainda mais intenso aquele crescer da luz – que melódicamente recordei as palavras de Scott Weilland, escrevendo “Atlanta”,
“She lives by the wall,
and waits at the door,
She walks in the sun, to me “.
Perguntei-me se partilhando amantes, enganando gordurosos maridos, espancadas as mulheres ou futilmente maquilhando-se de jóias, toda a carne e todo o metal - sobre o qual se ergue a circunstância contemporânea dita Atlanta - se havia nessa manhã prostrado e comovido, fulminada de uma atroz pequenez, na esperança que um bem-dito milagre surgisse daquele inaguardado ímpeto de luz, expiando-nos das mentiras que nos trazem tão pesada, a breve existência.
Dera-se a cidade conta da frágil contingência do aglomerado que nela existe? Dera-se ela conta do mal e do bem, da força e da doença, do fogo, da água, dos velhos e novos, dos perfeitos e do estropiamento dos rejeitados? Constatara numa súbita atenção, a profunda sabedoria de uns e a repugnante ignorância de todos os outros? Dera-se conta da ambição e da cobiça, do choro, do riso, da dor ou júblilo ou do despojamento, que não somos já capazes de suportar? E por entre esse demasiado lixo e a persistente pouca virtude, dera-se enfim conta daquela trémula justaposição de almas, que convergindo no ínfimo de seus corações, jurava no medo e na fúria, um amor eterno, quando tudo o que acima delas avança é agressivo e pontiagudo?
A minha mão ficara marcada onde antes observava uma natureza morta. Esperei que da moldura desse instalado silêncio surgisse, no pormenor, um arrependimento. Esperei... mas a espera era a esperança descrente em si mesma. Ao longe, adensava-se por fim o retomar um tanto ou quanto tardio da normalidade, a voragem irreversível de todas as coisas que nos prendem e nos tornam, pela maior parte do tempo, entidades invisíveis a nós mesmos.
Os pássaros, assustados, fugiram.
Melhor era que no banho me visse livre desta difícil persistência do sonho. Em Atlanta, já nada existe por quem valha a pena o interesse de um gesto, um quadrado puro no coração, pois nada se sobressalta ou se angustia pela ausência, pela interminável duração do dia, antes que o beijo do reencontro por inteiro nos restabeleça. Há quem se queira ou se ame? Há quem simplesmente espere e lhe cause dor o insuportável largar da mão, por todo um resto de dia?
Esfreguei pelo corpo a higiene perfumada de uma barra de sabão, a espuma da barba no contorno do rosto, apaziguei a ardência da gilette com bálsamo hidratante e reparador, vesti-me de Armani e um pouco mais lentamente do que costuma ser habitual, saí... Que nos fulmine a luz e se anuncie aos que persistem amando, que em breve, todos estarão ameaçados de extinção….
Julian Böhm
"Atlanta" por stone temple pilots, do álbum "number four" editado por geffen records em agosto de 1999.
27 março, 2008
a mediação impossível
stuntman mike vs. pam
Death Proof, de Quentin Tarantino, troublemaker studios, Julho de 2007
24 março, 2008
e assim foi no princípio!
Por paradoxal que tal nos possa parecer, os duelos são coisas que por vezes se eternizam, ainda que algum dos seus protagonistas, em dado momento, se ache prostrado na terra , mortalmente fulminado. Por graça e génio de sergio leone, a eternidade cinéfila persiste no caso do duelo de morte entre lee van cleef e gian maria volonté, arbitrado por clint eastwood cena de "por um punhado de dolares mais" e que serviu de inspiração ao primeiro post deste blog, exactamente há um ano atrás, inaugurando-se a partir dele, toda a sequência que por aqui se vai mantendo viva ou já arquivada.
Ainda que seja gian maria volonté aquele que mais ficou a perder e aquele que prostrado e sujo de poeira, pelo resultado que sobre si se produziu, definitivamente encerraria o duelo em que arriscou, o que é certo é que o combate se acha eternizado na memória dos vivos, apesar do funesto resultado a que, necessariamente, conduziu.
Ora, um ano depois, diria que o blog aperguntacircular, nem é vencido nem vencedor e por isso não tomará partido por van cleef, nem por volonté. Diria que tal como o verdadeiro mediador, o blog continua e continuará como se fosse a personagem de clint eastwood, segurando um relógio com caixa de música, propiciando um justo enfrentamento, aguardando que um resultado se produza. E ainda que possamos manifestar simpatias por este ou aquele, o certo é que, mais tarde ou mais cedo, um disparo deflagrará e alguém no fim dele se achará vencedor e vencido.
Por agora e um ano depois, independentemente de revólveres e dos balázios, torna-se evidente que todas as felicitações serão bem vindas!
Obrigado.
20 março, 2008
aperguntacircular weekend lounge
"useless" - remistura por kruder & dorfmeister de original dos depeche mode, do álbum "dj kicks" editado por !K7 em junho de 1996.
Bom fim-de-semana! Boa Páscoa!
18 março, 2008
renegados?
Alguém me disse uma vez, que as boas respostas aos problemas, surgiriam sempre do lado oposto aonde as mesmas eram procuradas. E foi de algum modo essa visão e esse conselho que me trouxe o entusiasmo para a problemática da mediação: num exercício concreto daquele adágio gratuitamente oferecido – coisa rara! – a resposta para muitos dos problemas do sistema judicial, não estava no sistema judicial (e na míriade de soluções que a partir dele se desenham) estaria antes num modo alternativo de abordar as suas implicações e problemáticas, cuja essência não estaria dependente de uma estrutura mediatizada e administrativamente hierarquizada, estaria antes dependente do indivíduo, enquanto ser capaz de julgamento e de equilíbrio. O contraste assim alcançado e a que aquele adágio não é de todo estranho, não poderia ser mais eloquente… É daqui que surge e se vai mantendo aquele entusiasmo mediador.
Agora dá-se um simples exercício masoquista: e se o entusiasmo (ou mesmo a algazarra!) posta na mediação e na resolução alternativa de conflitos – que continua por aqui a ser manifestado – fosse o problema e as respostas necessárias e viáveis, houvessem de ser encontradas nos antípodas daquele nosso entusiasmo, aonde muito pouca gente ainda estaria? De quem seria todo este tempo? Quem seríamos nós? Os da alternativa renegada?
O exercício é hipotético e superficial, mas evidencia o facto de as soluções - quaisquer que elas sejam - nunca serem uma coisa simples... Por isso,
Say jam sucka jam!
Say jam sucka jam!
Say groove sucka groove
Now groove sucka groove
Say dance sucka dance
Say dance sucka dance
Say move sucka move
Now move sucka move
We're the renegades of funk
“Renagades of Funk” versão de Rage Against the Machine a partir de original dos Afrika Bambaataa, do álbum “Renagades” editado por Epic Music em Dezembro de 2000.
12 março, 2008
seven nation army
... e viremos algum dia a sê-lo?
"seven nation army" - the white stripes, do álbum "elephant" editado por V2 records, em abril de 03.
11 março, 2008
25 fevereiro, 2008
the poisoned mondays antidote
Rock Your Body - Justin Timberlake, do álbum "Justified" editado por Jive Records em Novembro de 2002.
22 fevereiro, 2008
mediação apreciativa
1. É hoje vulgar considerar-se Johnny Hartman como alguém cujo sentido e sobriedade na abordagem jazzística e cuja voz grave, mas sempre impecavelmente aveludada no timbre, nunca foi objecto de devido reconhecimento. Já tanto não se pode dizer do génio indomável e fulminante do John Coltrane e da qualidade imemorial do seu quarteto (Maccoy Tyner, piano, Jimmy Garrisson no contrabaixo e Elvin Jones na bateria). Contudo o som que se pode ouvir de “my one and only love” (e esqueçam as imagens, pois em 1963, a MTV não tinha sido inventada) serve aqui um propósito explanatório, sobre a conferência de Franco Fortieri na qual apresentou a denominada “mediação apreciativa”.
2. Franco adopta uma diferente perspectiva na abordagem à mediação. Para ele o fundamental não é reconhecer ou tentar reconhecer a verdadeira natureza do conflito e encontradas as suas razões, proceder evolutivamente no sentido de um equilíbrio cicatrizador entre as partes em litígio, o fundamental é antes e desde logo, encontrar e estabelecer um patamar positivo que de algum modo aquela relação quebrada ainda evoca e a partir daí, avançar em diálogo no sentido da resolução do conflito. Daí a enorme importância dada à pré-mediação, como câmara aonde as partes conflituantes, num exercício de activo de memória, evocação, tentam colocar entre elas e sempre previamente, factos, lembranças, acontecimentos, simbioses cuja presença e lembrança não só determine a dinâmica pela positiva do diálogo a estabelecer em mediação (com o mediador), como sirva de estímulo positivo à resolução do conflito e ao reestabelecimento da relação naquela mesma base agradável, ou profunda, que as partes inicialmente (em pré-mediação) apenas evocavam.
3. Para Franco a mediação é irredutivelmente um exercício optimista, aonde qualquer evocação negativa é simultaneamente a possibilidade do seu fim. Haverá assim – e tal é condição sine qua non – a necessidade, no seu dizer, de uma predisposição ao lirismo ou à arte: à sofisticação e à sensibilidade de todo o ser humano e à respectiva capacidade de identificar o extraordinário ou o belo. E quando a desavença se instala e a inspiração é precisa, talvez não seja muito difícil convocar aqueles momentos de trégua ou de doce calma, a que corresponda a consciência plena, de que verdadeiramente a existência, é uma arte e que nela existem momentos que por inteiro nos preenchem e se nos gravam como um filamento de beleza, ainda que tal possa ocorrer na mais simples e vulgar das horas, com a mais vulgar de todas as coisas: quando Hartman, depois da introdução completa do standard por Coltrane, começa a cantar, com todo o ensable, “my one and only love” de Guy B. Wood e Robert Mellin, ou como quando daquela vez em Paris, frente à Ópera, e nevava…
Verdadeiramente, seremos sempre nós a beleza e a sua arte, porque ainda que o mundo caia aos pedaços, seremos a exacta medida das suas coisas.
Bom fim-de-semana.
“my one and only love” de Guy B. Wood e Robert Mellin, interpretado por John Coltrane e Johnny Hartman no álbum com o mesmo nome, re-editado por Impulse!! Records, em Junho de 1995.
19 fevereiro, 2008
sobreviveremos
1. Toda a questão da sobrevivência é uma questão radical e por norma, quando ninguém realmente com ela se confronta, ou se confunde (quando a ninguém se coloca a questão de sobreviver) ela serve temas meramente especulativos que nos são propostos de múltiplos modos: por exemplo, como séries de televisão que qualificam os seus protagonistas como perdidos, ou como a última esperança de um país assolado por terroristas, ou então como simples escrito, arrazoado, que partindo de certas tendências ou coordenadas, procura antecipar ou a sobrevivência do Estado e dos Tribunais como sistema único de realização da Justiça, ou o seu eventual colapso ante outras modalidades de resolução de conflitos, assentes num julgamento individualmente referido, num acerto entre partes conflituantes.
2. Não deixa de ser estranho que o Estado desconfie desse poder cicatrizante de que cada um de nós é capaz! E não deixa de parecer estranho que a capacidade que muitos de nós têm de, senão de perdoar, pelo menos de absolver, haja sido esquecida. Não deixa de ser profundamente injusto e perturbante para nós mesmos – enquanto seres humanos, conscientes dessa dimensão e desse pode apaziguador – que algures nessa evolução civilizacional, tenhamos deixado, prescindido, da faculdade de absolver, de remir, de desculpar, ou de pelo menos, partir de nós próprios o impulso e a habilidade para ultrapassar o conflito.
3. Não se pretende com isso negar que na grande parte das vezes, ainda que predispostos a uma capacidade de absolvição, tal não seria conseguido senão pela forma tradicional de resolver os conflitos: os Tribunais. A grande questão, aquela que deverá merecer o nosso próprio espanto, é que nos tenhamos acomodado de tal modo e tão facilmente a essa forma unívoca de abordar a conflitualidade e de, com tal conformação, tenhamos abdicado de nós mesmos, daquilo que é a nossa natureza e do que ela é capaz, em favor de um sistema de juízo e de punição que presentemente – atenta a sua dimensão e complexidade – dificilmente é produz e expressa algo que se possa dizer de verdadeiramente justo, porque próximo das convicções ou da sensibilidade de cada um de nós, da vítima ou do agressor.
4. O Estado é um sobrevivente. E é em nome dessa sua sobrevivência, que ele ocupa uma vez mais um espaço eminentemente conexo com a individualidade de cada um: o espaço e o poder que cada um tem de ser ele próprio e de entender-se a si e ao outro, como um veículo através do qual se consiga estabelecer uma qualquer proximidade e com isso, uma capacitação, nomeadamente aquela outra de que há muito abdicamos, a do indulto, a da absolvição do outro por nós mesmos, considerada uma atitude recíproca e valorativamente idêntica naquele a quem indultamos.
5. Numa leitura mais extrema, a interferência do Estado numa matéria potencialmente tão individualizante como é a resolução alternativa de conflitos (enfim, seguindo a leitura que por aqui a este propósito, vem sendo debatida) não visa senão privar-nos dessa mesma capacitação e da sua transposição para uma dimensão civilizacional que dele (Estado) tem sido apanágio exclusivo: a da realização da Justiça.
6. O propósito é partir-nos as pernas, antes que seja tarde. E nós, sobreviveremos?...
"I will survive" - versão do original de gloria gaynor, por Cake, do álbum "fashion nugget" editado por capricorn records, em agosto de 1997.

